domingo, 2 de setembro de 2012

Profecias de Nóstelegamus Farão.




À luz da lua e de archotes o arqueólogo Ari sorriu para a descoberta: o Pergaminho do Profeta Desconhecido. Profecias de Nóstelegamus Farão.








Para azar do arqueólogo fui designado para acompanhar as pesquisas. Mas ele, antes de partir, pôde ao menos sentir a alegria de traduzir, para mim, em voz alta, a prova da existência do vaticínio sobre o que aconteceria no hemisfério austral.






O manuscrito previa Glória e Longa Vida para certa democracia potocada e parasitária de sugadores meãos meridionais, e garantia que em tal Magnífico Dia:

Toda demagogia será premiada, em nome do Poder Sugador.

Todo preconceito será fomentado, toda correção será criticada.

Toda liberdade será incentivada, e o medo de viver entre criminosos silenciará e reterá em prisão domiciliar todo o que se atrever a prezar o brio e a vergonha na cara.

Toda forma de policiamento será condenada e criminalizada. Todo real criminoso será inculpável pelo amplo direito à defesa, desde que ligado ao poder vigente.


Todo Tribunal de Vasto Jus se fará cego para o que não é da Vontade Sugadora, mudo para a defesa de quem não é do Partido e surdo para a ultrajada opinião pública.

Toda eleição será controlada pela Confidencial Corregedoria do Voto Eletrônico Alterável. Certos municípios até elegerão prefeitos de fora do Partido desde que as Câmaras se formem repletas de Corrompíveis.

Todo imposto será paulatinamente aumentado, e aplicado, majoritariamente, na manutenção da crescente e famigerada Gula dos Potocados Sugadores.
Óbolos e quinhões se garantirão a todo corpo mole que mantiver a prole boçal.

Toda Escola Comunal despreparará dentro do possível os alunos incentivando a agressividade nos dementes, ignorando as necessidades nos drogados, e reforçando a debilidade nos fracos. Ficam mestres autorizados à mesmice em aula, para que não se desenvolva na maioria capaz o caráter que faz modificar as cousas.

Toda profissão que não constrói será incitada, em nome da obumbração popular.

Todo dependente dos Benefícios da Força Sugatória terá por obrigação ridicularizar a mídia digna e valorizar a mídia que deve favores econômicos ao Poder.

Todo Partidário Tarja Suja será tornado Tarja Limpa, e vice-versa. Que a mágica da hipocrisia se execute diante dos olhos dos éticos e lúcidos; para que aprendam que anistia geral e irrestrita o Poder só concederá a Iguais e Sequazes, nunca a opositores.

Todo Sócio Sugador que não puder ser salvo de acusações de corrupção, peculato ou similar terá direito a premiações assim que o povo esquecer autoria e crime, ou até que se amoldem novas necessidades democráticas a qualquer Código Penal.

Todo álcool, porta para as drogas, será permitido à altura da incapacitação de quem ainda tenha cérebro para rebelar-se. Toda droga será proibida para que se gere ganância e sordidez capaz de destruir o último bastião da moral e da ética: a família.

Todo aquele que puder prejudicar, de algum modo, a formidável permanência da Alta Cúpula Sugadora no Poder Austral, implorará pelo fim do próprio calendário
.”


Então, era aquilo, ou perder meus altos ganhos...


A mídia deu notinhas localizadas:

“Obscuro cientista, sem descobertas relevantes para a humanidade, sofre acidente”.




Não se noticiou o tiro na nuca.


Não existe pecado abaixo do Equador, disse o poeta.





Archotes foram responsabilizados pela morte e devastação na barraca.




No entanto a coisa pública funciona!


Providenciaram lindo enterro para ele e familiares, que aparentemente suicidaram-se dias depois em uma casinha próxima às escavações na pequena cidade de Engana-Tico-Tico, em Confins das Américas Meãs.





A razão do suicídio familiar?


Após exaustivas pesquisas de hora e meia, do alto de seu Amoroso Poder, Fiscais Potocadores garantiram:

Mataram-se de pura saudade.




Eu fiz o que iguais farão.



E o Poder fez questão de homenagear a família.









Mas eu não pude reconhecer se foi ironia, ou só mais um de nossos incitados erros, o adeus final que na lápide afirmava: “A úrtima morada? Nós te legamus...”.







* Publicado no jornal Folha da Região, Caderno Vida, coluna Porta-Retratos de Cecilia Ferreira (escreve quinzenalmente para o espaço).

6 comentários:

  1. OI Cecilia,
    Nossa...triste a realidade. Nada como estudar...rs

    Beijokas
    Paula Kasas

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    1. Oi,Paula. Um rio impedido de circular sempre encontra um caminho novo. O saber contido também. Bjnhs

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  2. Dar vazão aos sentimentos, emoções, desejos, conhecimentos, ainda que utópicos é nosso dever quando portadores do conhecimento. Uma visão interessante para minha aprendizagem.
    Bj. Célia.

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    1. Suas considerações também ensinam e contribuem. Obrigada por mais essa visitinha

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  3. Aos poucos, o ficticio confirma a dura realidade que se alastra... Felizmente existem pessoas iguais a você que nos faz ver com mais nitidez os descalabros e, com isso, poderemos ir buscando alternativas para um porvir de ações mais fraternas, justas e solidárias. Aplausos!

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    1. Se de fato isso auxiliar um amanhà melhor para a maioria de bom coração, que alegria!

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Que bom que quis comentar. Pode esperar que logo respondo. Obrigadinha.