domingo, 18 de março de 2012

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO



Amanhece.

Na varanda envidraçada a entrevada senhora relê um trecho do livro Em Busca do Tempo Perdido:

“– A filha do Sr. Pupin? (...) você acha que eu não a conheceria?

– Mas não falo da mais velha, quero dizer a garota, a filha que está num pensionato em Jouy; parece-me que já a vi esta manhã.

– Ah, só se é isso – dizia a minha tia. – deve ter chegado para as Festas. É isso! (...) Mas então poderemos daqui a pouco ver a Sra. Sazerat bater à porta da irmã para almoçar. É isto! Vi o garoto do Galopin passar com um empadão! Você vai ver como era para a casa da Sra. Goupil...”

– Isso foi escrito antes de 1913, acredita? A vida era um ovo, todos se conheciam. Esmiuçar a existência alheia era o que se fazia, diz a senhorinha ignorando o chá e os remédios que a enfermeira oferece. Sabia que o romance de Proust foi recusado por quatro editores? E se não houvera sido publicado? Julgar é mesmo um pretensioso perigo... Em tempo de a obra sofrer biodegradares ao bel-prazer da umidade das eras, afirma a velha mesclando o português quase arcaico à intuição de uma provável futura conjugação ainda inexistente.

Não aceita a cadeira de rodas em que está sentada, como não quer ver o reflexo da exagerada plástica facial. O vasto espelho, na moldura rococó acordoada à parede, é a expressão do rico passado insistindo em revelar o obsoleto futuro que lhe chegou.

Em criança, menina-moça, ou mesmo mulher o porvir parecia só esperança e renovação.

– As janelas se abriam para o mundo! Resmunga, senil de raiva, diante do desacompanhar da acompanhante que indiferente insiste na xícara e nos comprimidos.

Para fora do amplo apartamento os olhos, vítreos, resvalam vãs engenharias. São paredões concretados e seus vedantes vidros espelhados, venezianas metálicas, janelões fixados em alumínios ligeiramente basculantes, ou suportes contidamente pivotantes – a base da descrição é o ecoar do zum-zum abafado e indistinguível descortinado nas ruas, mascarando vidas. Ocasos.

Para dentro o olhar, vívido, penetra chãs arquiteturas. São frágeis portões em gradis de ferro, altura máxima de oitenta centímetros, construções de tijolo e cimento embelezadas por pedras naturais com suas pequenas aberturas encaixilhadas em madeira correndo a envelopar frestas de tabuinhas móveis mal contendo vozes em suas privacidades de persianas – o auge da discrição é o engalanar-se sob o peso de aveludadas cortinas, escancarando vidas. Auroras.

Ao recordar a própria juventude a voz idosa emerge, juvenil e revoltada, como se estivesse no ano de 1959:

– Mamãe! A vizinha da frente passa o dia a espreitar se entramos, se saímos... Desconfio que cheire o ar para adivinhar o que comemos no almoço!Definitivamente ela não tem com o que se ocupar!

Um barulho a desperta do transe. A anciã move a cadeira motorizada para avistar a nora, chaves na mão, já dentro do hall. A neta ao sair do antigo elevador não dirige palavra ao outro passageiro, presença silenciosa que segue para o respectivo andar. A funcionária deixa a medicação e desaparece. A menina sem beijar a avó se joga sobre as muitas almofadas do sofá de seda adamascada e incansável aperta, com o dedo, um aparelhinho do tamanho de uma barra de chocolate de 35 gramas.

– Oi, vovó! Sabe a sua amiga que se mandou pro outro lado do mundo? Fuça na minha página todo dia. Curte até as fotos do que eu como!
Definitivamente ela não tem vida!

A fala da neta, beijo inesperado, fonte da juventude, ilumina esse admirável mundo novo. Subitamente remoçada a avó pergunta:

– Onde arranjo alguém que me ensine a mexer nesse tal de Facebook?

– O quê? Duvida a nora.

Mas a senhorinha não ouve. Só de imaginar o acesso à vida, desfruta a alegria dos neurônios correndo em busca do tempo perdido!




CURIOSIDADES:
• Publicado em 18 de março de 2012, Folha da Região, caderno Vida, coluna Porta-retratos.

4 comentários:

  1. Oi Cecilia,
    Os livros tem esse poder mesmo de nos fazer viajar e acreditar que longe é um lugar que nao existe...ainda mais com a internet hj em dia..rs
    bjus querida
    Paula Kasas
    Acabamentos e Complementos

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  2. Verdade. Eu passei um mês na China com o livro da Sônioa Bridi, correspondente da Glogo naquele país. Ótima leitura. O vô aqui também precisa de alguém que me ensine a mexer no...blogue.

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  3. Boa! Que tal se juntássemos alguns interessados e pedíssemos ao José Marcos uma aulinha?

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  4. Faça a gestão necessária e locupletemo-nos todos da aulinha.r****

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Que bom que quis comentar. Pode esperar que logo respondo. Obrigadinha.