sábado, 13 de agosto de 2011

LIÇÃO DE JARDINEIRA (Cecilia Ferreira)


Situação: prejudicada qualquer possibilidade de sereno retorno ao lar, por ineficiência do funcionário da Viação Prestígio e por excesso de autoconfiança da passageira.

“Tudo nesta vida tem jeito!”

Jeito: encarar a jardineira.

Jardineira: palavra muitas vezes pronunciada de maneira depreciativa.

“Onde é que fui me meter?”

Agora era a via-crúcis.

Dissera adeus à viagem confortável em ônibus com janelas em vidro fumê, bancos reclináveis e ar-condicionado. Um quase passeio, sem paradas, que teria resultado em adequadas duas horas de relaxamento.

“Já este...”

Previamente desanimada, olha para a inscrição na janela frontal do veículo que lhe cabe, checando origem e destino.

Letreiro: Goiânia – Campo Grande.

“E ainda dá essa volta pelo interior do noroeste paulista?

Horror. Certeza de vários passageiros fazendo o trajeto desde o seu início e muitos seguindo até o ponto final. Qual o total daquelas horas de tortura? O que pensam os que com ela aguardam o momento de embarcar?

Companheiros: suposta fila, enrolamento de corpos.

Mantém certa distância das pessoas que, pela aparência, não inspiram
nenhuma confiança. Em torno, esperando o ingresso ou o retorno à clausura, faces retorcidas e corpos ressecados como árvores nascidas em solo árido. Sobe os degraus do carro.



“Até que enfim!”

Em seu bilhete não há numeração de assento.

Motorista: “Senta em qualquer lugar...”

“Essa é boa!”

Caminha entre os bancos procurando um companheiro menos assustador, de preferência mulher, como ela.

Surpresa: no final do carro dois assentos contíguos vagos.

“Poltrona do corredor! Deus me livre de ficar encantoada...”

Medo: sabe que logo alguém se sentará ao seu lado.

Sorte: menina novinha, aparência de dezoito, criança de ano e meio ao colo, carregada de cobertor, travesseiro e sacola com as mil tralhas da filhinha.

Mãezinha: “Licença”

“Spera, deixa eu me levantar”.

Sorrisos. Alívio. Agora sim a viagem pode seguir sem tantos sustos.

Viagem: jardineira rodando sem a mínima preocupação com o bem-estar humano irá deixar passageiros ao longo do caminho, escoando-os como em frestas de balaio. Farinhando farinháveis. Descarregando e recarregando.

Carga: nossa pobre classe café com leite, pelo censo chamada média; pela mídia chamada pobre; classe sem classe, fora de moda, e ainda assim, classe muda.

Feições deterioradas pela fome, angústia deformando posturas, higiene sem qualidade que enfeia, deixa vestígio, macula. Nem se pode divisar a luta para viver dignidades.

Trajeto: brincadeiras, generosidade, companheirismo, solidariedade, de todos para com todos.


Sofre a sensação da indignidade do julgamento fácil, da timidez de possuir tão mais. Na necessidade de pedir perdão por seus pensamentos germina seu querer; também pode ser companheira.

Evolução: alcançar simplicidade, humildade, cortesia e capacidade de ser feliz por ser feliz.

“Parece tão natural para eles.”

Véu, agora brisa, descortinando a enganosa estampa daquelas figuras, agora gente. Nasce a inveja às avessas. Boa inveja.

Percurso: gostoso o tempo correu.

“Vou ficar por aqui. Gente, boa viagem. Obrigada.”

Desce. Lição no bolso.

“Deus, que eu não me esqueça desta aula!”


Jardineira: caixa onde se plantam flores.

“Tá lá no dicionário.”





Cecilia Ferreira

Curiosidades:
* Este conto foi publicado na revista Plural da Academia Araçatubense de Letras e no Livro Contos Escolhidos / 23º Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba.
• o ônibus que dá toda essa imensa volta existe.
• a viação e os personagens são todos produto da imaginação desta autora.
• esta autora gostaria de lembrar-se todos os dias que os seres humanos em sua maioria são flores.
• esta autora sente que as muitas flores nacionais andem sufocadas por algumas poucas ervas daninhas.

8 comentários:

  1. Quando jovem andei muito de jardineira. A gente ia até à reta . Um verdadeiro balaio de... Ás vezes era mesmo uma caixa de flores , galinheiro, arapuca pra passarinho e era só farofa que voava na cara da gente.
    Tempo ruim? nada, era gostoso!

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  2. Somos do tempo em que ser feliz estava nas coisas mais simples!? r***

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  3. A diva das crônicas discorre aqui sobre um passado bastante nostálgico e dá uma magnífica aula sobre as coisas simples da vida. Ler você não é só um refrigério para alma, Cecília, é também aprendizado.

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  4. Antenor, a sua gentileza enxerga mais do que posso oferecer. Agradeco o carinho.

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  5. Olá Cecilia !

    Adoro crônicas , acho que literatura e cinema são meus vícios.
    Escrevo uma novela, vou postar os capítulos no blog "Cia dos Blogueiros".
    Mas me sinto escritora, só gosto de escrever.

    Adorei como sempre a postagem!

    Um lindo dia!

    Beijos,
    Elaine Crespo

    P.S.: Ando ausente por conta de uma virose! :(

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  6. Oi Elaine, senti sua falta. A virose teria resultado da resistencia que caiu pela suadades dos filhos? r*** Isso seria a minha cara! Espero que eles tenahm aproveitadoa viagem. Sorte e persistencia, ai na escrita da novela, nao eh facil! Se sua paixao eh a escrita, ano que vem voce poderia tentar concorrer no Concurso Internacional de Contos da Cidade de Aracatuba, o que acha? Abraco

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Que bom que quis comentar. Pode esperar que logo respondo. Obrigadinha.