domingo, 1 de abril de 2012

ARBORESCÊNCIAS



A uni-los a árvore, mangueira frondosa, que nasce nos fundos do quintal de José. É ela quem, no sentido do sol, estira os galhos fartos de frutos sobre o quintal de Altamiro.


Naquele dia, entre as folhas, apenas o espanto os afasta. Altamiro desafia comprimindo pupilas: pego quantas eu quiser! José sorrindo convida: sirva-se! O reconhecimento os apresenta.


Crescem juntos. Um, pelos fundos, vizinho do outro. A casa de Altamiro abre para, o que ele considera, o nada: a estrada de terra batida – da qual ele renega os destinos desejando morar ao menos numa casa como a de José. Ah, a casa é caiada! E, fincada que está no princípio do subir degraus da escala social, ao menos dá para a cidade.


Altamiro tem horror às origens, às chácaras e suas distâncias de campos, mesmo diante da proximidade de sustento. O que o pai ganha por empreita alimenta convenientemente a família de onze irmãos e os veste para as idas à igreja com reles dignidades domingueiras. Só.


José, ao contrário, estima os trocados conquistados a ponto de reparti-los.


Diante do casebre bem cuidado pela mãe e bem carpido pelo pai, Altamiro, calças rasgadas, pés no chão, camisa sem botões amarradas no sem jeito, ou até batendo as abas, livres ao vento (como não percebia ser), se queixava das moedinhas recebidas por serviços pequenos.
José vendo o avizinhado gemer desencantos, credita o resmungo ao desconforto, e ensina: escola!


A separá-los as classes em que mestres apartavam os mais estudiosos dos mais relaxados. A uni-los a árvore sob a qual no recreio Altamiro desafiava: copio sua lição o quanto eu quiser! E José convidava: sirva-se!
Juntos faziam artes e salvavam o universo. Unidos jogavam botão e gude. Companheiros pedalavam. Em conjunto salvaram um cãozinho da morte, resgatando-o de dentro do saco amarrado a pedras em que foi atirado ao rio. Magistrado, assim nomearam o vira-lata.


Magistrado acompanhava-os ao grupo escolar e na porta, por anos, esperava a saída dos dois até que um, por conhecer, graduou-se, e o outro, pelo educar, formou-se.


Companheiros, revolucionaram: um por reles subterfúgio, o outro por subidos princípios. Magistrado envelheceu e se foi com seu vivaz latido. Eles? Casaram-se. Mudaram-se, e assim também o mundo de ambos – abas batendo ao vento. Quão desobrigada pode ser a autonomia...


Altamiro, professor, alguns níveis galgados, sapatos de couro, camisa abotoada, morava em bonita casa pintada, num bairro de classe média, e de vez em quando, fazendo-se grato, visitava os pais no casebre. José, professor, apesar dos pais vivendo com ele, parecia estar sempre adiante, sempre onde Altamiro queria chegar: a casa do outro era maior! Melhor! Do lado em que o bairro passava a ser de alta classe! A uni-los a árvore anciã da praça, que sombreava frondosamente a casa de um e outro, e as brincadeiras dos filhos de ambos, que cresciam amigos.


Altamiro desconhece o vizinho que nada mais tem a oferecer e, se não é possível ignorar-lhe a superioridade, é preciso desfazer laços! O um dia descalço associa-se a antigos novos companheiros. Elege-se. Veste botinas de cromo alemão e terno de grife estrangeira. Ocupa assento na organização do caos, põe um dos ralos da suposta contenção pública a desaguar em seus bolsos, e num rasgo de benevolência, ou para exibir o obtido, convida José: sirva-se! O amigo do tempo das mangas fartas alerta: não se sirva!

Expressa está a certeza da diferença no material que os fabrica. Altamiro serve-se, serve-se, serve-se. José saca da pena e, no jornal, penaliza o comportamento do edil.


Altamiro, indigno, indigna-se! Movimenta verbas, cede a pressões, faz acordos em desacordo com o que pregou (sem crer), move pauzinhos e, tudo acertado, convoca magistrados: cosam direitos, abotoem liberdades, saquem penas!


José, sob a árvore do pátio de certa penitenciária, espia o mau presente, e expia o bom passado escrevendo sobre o melhor futuro. Suas artes circulam. Se a boca é pequena entre a gente que ainda se fará outra vez revolucionária, o orgulho por José é grande.


Penas da pena! Corroído em ódio Altamiro vai atrás de consolo: que ninguém me faça vista! É providenciar escolas a menos e usar o dinheiro destas para mais lances de poder! O quanto eu quiser!


Servo de si, Altamiro desconhece: nada o fará superior ao sobranceiro José, cujo único sofrimento é não ter conseguido ensinar-lhe a lição das árvores – sob as sombras frutificam resistência e saber.


• Cecilia Ferreira, publicado na Folha da Região, 01/04/2012

4 comentários:

  1. Árvore, semente e fruto como deveríamos ser e fazer com nossos talentos.
    Bj. Célia.

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    1. Depois da semente, árvore e fruto, pra completar e fechar, o comentário da flor! Bjnhs pra vc Célia!

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  2. Oi Cecília,
    Gostei do texto, muito bom!
    Vou seguir o blog.
    Visite o meu, se achar interessante, siga.
    Até+

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  3. Aagradeço o prestígio, e, sigo-o, claro! Grato abraço.

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Que bom que quis comentar. Pode esperar que logo respondo. Obrigadinha.