quinta-feira, 19 de maio de 2011

MEMÓRIA





















Nos vasos, às vezes
os copos-de-leite,
acácias-mimosas...
(mamãe não colhia espinhos das rosas).

A sala da alma recende a florir.

O corpo, prostrado,
no morno tapiz,
foi outeiro da memória,
recriando a sensação,
da velha casa de campo,
em meu Campos do Jordão.

Do azul, vermelho
– apolíticos –
vertia a luz do vitral,
e redesenho no chão
formas que agora suponho
e o taco-vidrilho
recorto com a mão.

A sala da alma transcende o matiz.


No declive do gramado
rolando minhas lembranças
(lânguido rola meu corpo
ou é o mundo quem dança?)
até tocar o cedrinho,
cerca de um mundo criança.

A sala da alma cultiva o jardim.

Do fogão à lenha,
quem cozia celebrava:
- Todos ao caramanchão!
Ah, interminável deleite
De comer-chupar pinhão.

A sala da alma tempera o sabor.

Tanto o frio encanecia
as protetoras janelas,
que ao amanhecer o dia
dedinhos desenhadores
debuxavam, desdenhosos,
no vidro, a vida, o futuro.

A sala da alma se agarra a seus muros.

Pois hoje, destino feito,
eu recrio a sensação:
pinheiros, cedros e cheiros,
redes, paredes, vitrais,
edredons, embalos, sons,
fulgores e seu clarão...
da velha casa de campo
em meu Campos do Jordão.


CURIOSIDADES:
• Esta casa realmente existiu.
• Este é o único poema baseado em fatos absolutamente reais do meu passado.
• Fomos mais de 50 primos-irmãos por parte de pai a frequentar e a dividir a casa nas férias.
• Todos temos a mesma memória e saudade.
• A casa ainda está lá, linda!
• Nada apaga a saudade, porque o gosto é de infância.
• Homenagem a minha mãe que me ensinou a colher flores e a ignorar os espinhos.
• Homenagem a Aurora que, em Campos, preparava os pinhões colhidos em nosso jardim e fez os doces mais inesquecíveis de nossa infância.
• Homenagem a meu pai, poeta da Academia Paulista de Letras, que faz parte integrante destas saudades.
(poema do Livro "Vinhos", subtítulo "Raros", editora Nankin - reprodução permitida desde que citada a autoria de Cecilia Ferreira)

6 comentários:

  1. Cheiro intenso de flores, de campo. Colorido que alegra a alma. As palavras tem vida. Eu senti cada palavra. Saudade de você!

    ResponderExcluir
  2. Duxtei Vinhas Itavo18 de maio de 2012 09:37

    A infância é uma época muito rica de emoções. Que bom você lembrá-las e repartir conosco. Parabéns. Me senti na mesma casa. Obrigada.

    ResponderExcluir
  3. Oi, Simone! Também tenho saudades. Mas ler você por aqui já ajuda a minimizar. Obrigadinha por dividir sua impressão comigo. Bjnhs

    ResponderExcluir
  4. Olá, Duxtei, especial ver você por aqui. Fico feliz que se sinta em casa. Quem agradece o carinho sou eu! ;)

    ResponderExcluir
  5. As tuas lembranças vívidas delineadas em tão lindos versos, eu as teci como as contas de um rosário e vou seguindo como andarilho dos sonhos de suas letras colossais. Um terno abraço, Cecília.

    ResponderExcluir
  6. Esse é o meu amigo Antenor, mesmo elogiando constrói um poema! Abraço!

    ResponderExcluir

Que bom que quis comentar. Pode esperar que logo respondo. Obrigadinha.