Mostrando postagens com marcador Do Inconformismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Do Inconformismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de novembro de 2012

Violações do BRASIL



                                  O meu país agora é um mau país que vai de mal a pior.



Cecilia Ferreira
Violento Novembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

Profecias de Nóstelegamus Farão.




À luz da lua e de archotes o arqueólogo Ari sorriu para a descoberta: o Pergaminho do Profeta Desconhecido. Profecias de Nóstelegamus Farão.








Para azar do arqueólogo fui designado para acompanhar as pesquisas. Mas ele, antes de partir, pôde ao menos sentir a alegria de traduzir, para mim, em voz alta, a prova da existência do vaticínio sobre o que aconteceria no hemisfério austral.






O manuscrito previa Glória e Longa Vida para certa democracia potocada e parasitária de sugadores meãos meridionais, e garantia que em tal Magnífico Dia:

Toda demagogia será premiada, em nome do Poder Sugador.

Todo preconceito será fomentado, toda correção será criticada.

Toda liberdade será incentivada, e o medo de viver entre criminosos silenciará e reterá em prisão domiciliar todo o que se atrever a prezar o brio e a vergonha na cara.

Toda forma de policiamento será condenada e criminalizada. Todo real criminoso será inculpável pelo amplo direito à defesa, desde que ligado ao poder vigente.


Todo Tribunal de Vasto Jus se fará cego para o que não é da Vontade Sugadora, mudo para a defesa de quem não é do Partido e surdo para a ultrajada opinião pública.

Toda eleição será controlada pela Confidencial Corregedoria do Voto Eletrônico Alterável. Certos municípios até elegerão prefeitos de fora do Partido desde que as Câmaras se formem repletas de Corrompíveis.

Todo imposto será paulatinamente aumentado, e aplicado, majoritariamente, na manutenção da crescente e famigerada Gula dos Potocados Sugadores.
Óbolos e quinhões se garantirão a todo corpo mole que mantiver a prole boçal.

Toda Escola Comunal despreparará dentro do possível os alunos incentivando a agressividade nos dementes, ignorando as necessidades nos drogados, e reforçando a debilidade nos fracos. Ficam mestres autorizados à mesmice em aula, para que não se desenvolva na maioria capaz o caráter que faz modificar as cousas.

Toda profissão que não constrói será incitada, em nome da obumbração popular.

Todo dependente dos Benefícios da Força Sugatória terá por obrigação ridicularizar a mídia digna e valorizar a mídia que deve favores econômicos ao Poder.

Todo Partidário Tarja Suja será tornado Tarja Limpa, e vice-versa. Que a mágica da hipocrisia se execute diante dos olhos dos éticos e lúcidos; para que aprendam que anistia geral e irrestrita o Poder só concederá a Iguais e Sequazes, nunca a opositores.

Todo Sócio Sugador que não puder ser salvo de acusações de corrupção, peculato ou similar terá direito a premiações assim que o povo esquecer autoria e crime, ou até que se amoldem novas necessidades democráticas a qualquer Código Penal.

Todo álcool, porta para as drogas, será permitido à altura da incapacitação de quem ainda tenha cérebro para rebelar-se. Toda droga será proibida para que se gere ganância e sordidez capaz de destruir o último bastião da moral e da ética: a família.

Todo aquele que puder prejudicar, de algum modo, a formidável permanência da Alta Cúpula Sugadora no Poder Austral, implorará pelo fim do próprio calendário
.”


Então, era aquilo, ou perder meus altos ganhos...


A mídia deu notinhas localizadas:

“Obscuro cientista, sem descobertas relevantes para a humanidade, sofre acidente”.




Não se noticiou o tiro na nuca.


Não existe pecado abaixo do Equador, disse o poeta.





Archotes foram responsabilizados pela morte e devastação na barraca.




No entanto a coisa pública funciona!


Providenciaram lindo enterro para ele e familiares, que aparentemente suicidaram-se dias depois em uma casinha próxima às escavações na pequena cidade de Engana-Tico-Tico, em Confins das Américas Meãs.





A razão do suicídio familiar?


Após exaustivas pesquisas de hora e meia, do alto de seu Amoroso Poder, Fiscais Potocadores garantiram:

Mataram-se de pura saudade.




Eu fiz o que iguais farão.



E o Poder fez questão de homenagear a família.









Mas eu não pude reconhecer se foi ironia, ou só mais um de nossos incitados erros, o adeus final que na lápide afirmava: “A úrtima morada? Nós te legamus...”.







* Publicado no jornal Folha da Região, Caderno Vida, coluna Porta-Retratos de Cecilia Ferreira (escreve quinzenalmente para o espaço).

domingo, 22 de julho de 2012

AMOROSO AMANHÃ

 
A menina revira escombros para encontrar algo que renda Potocas-Douradas.

Muitas Potocas podem comprar um cargo de Auxiliar-de-Caça-Eleitor.


Ao invés disso descobre um livro! Justo ela, uma Periférica que ainda sabe ler. Que sorte!


Eduína oculta a preciosidade sob o incômodo vestido ecoplástico, e a sensação do macio papel, na pele, é incrível para quem nasceu na Orla-Olvidável.



Esconde-o na esperança de não ser pega.


E, porque o sistema carcerário é oneroso para o bolso do Amoroso-Poder, sequestrar, traficar e assassinar são Crimes-Passe-Livre após Demonstração-Pública-de-Desagravo.



Mas saber ler, para um morador da Orla, é crime inafiançável, inapelável e de detenção perpétua, já que todo livro pertence ao Museu-Hirsuto-Nacgional, onde a democracia, mediante licença, permite consultas somente aos Capacitados-pelo-Comitê-de-Alta-Ingerência-Pátria.


Eduína sabe que houve um mundo melhor e mais livre, mesmo que o Reformatório-Educacional-do-Quinhão-Local diga que aquilo é falácia e mito criado pelas já destruídas CiasDFs-e-Outras-Inferioridades-Revolucionárias.

 
Se o Museu-Hirsuto não é para todos, um Olvidável tem o dever de frequentar o Recreativo-Sorria-Já.



Os Recreativos, não possuem livros ou obras de arte, mas obrigam semanalmente ao esporte, e uma vez ao mês apresentam Amorosos-Famosos entoando canções de 4 compassos e refrão de até 8 palavras para honra e glória do Amoroso-Poder, com direito a um doce, show de fogos e uma bexiga colorida! Que alegria!





Mas a garota prefere crer que há opções.






Vendo tanto escombro e ruínas ao seu redor ela entende que são destroços dos tais sistemas desativados, indústrias vilipendiadas e outras infraestruturas. E aí crê que a água já jorrou por canos aquecidos, que houve luz noturna e que som e imagem podem ter caminhado pelo ar.


Descendente dos estudiosos condenados a olvidar, Eduína vive numa Oca-Comunitária de Taba-Periférica para onde se transferiu todo aquele que não aceitou o cabresto da Nova-Amorosa-Câmara (especializada em disfarçar por meio de projetos a falta de investimento real, mais conhecida como Dema-Gogo-Social-Assembleia).



Foram os Dema-Gogos que criaram a Amorosa-Universidade-Cotista-Pão-e-Circo, porque se fizessem justiça salarial aos mestres e dessem dignidade física ao Ensino-Público-Amoroso desde a infância a ponto de os alunos concorrerem com os estudantes das escolas pagas, quem cobriria do 14º ao 18º salário e outros tantos benefícios incríveis conquistados a duras Penas-Plenárias?























A solução?

Cotas-Universitárias para os incapacitáveis pelo Amoroso-Sistema-de-Ensino-Básico-Fundamentado.


Professores insatisfeitos e alunos deseducados proibidos de fazer correções, ou sofrer reprimendas, desmotivariam os metidinhos a estudiosos.


E, só para garantir determinaram: aquele que estudar mais e parecer saber mais deve ser apontado e acusado de Exibido-Portador-de-Preconceito-Intelectual.























Medidas simples sempre podem acovardar pais de alunos mais exigentes.

Edu sabe, a Universidade nem é cotista, já que todo eleitor não ligado ao governo é Despreparadamente-Igual-a-Quase-Todos fazendo a maioria desistir cedo do estudo não recompensado.

Enquanto ela, que nem pertence aos Quase-Todos, suspira na certeza de que estudar legalmente não é para o seu bico.


Sua sorte é a Resistência que ensina melhor e furtivamente os Olvidáveis-Inconformados.









Assim, puxa o decote em V de sua ecoveste cobrindo a cabeça por inteiro e arrisca-se a ler baixinho o título do livro: “Bolsa-Estudo-Exterior-para-Quase-Todo-Estudante-Descendente-do-Amoroso-Poder-Público (Obrigações e Direitos)”.














É então que sente! Está imobilizada! Serão os Amorosos-Fiscais-Censuradores-da-Resistência-Cultural? Em pânico sufoca e desmaia.


Eduína abre os olhos doloridos pela febre.


Percebe: está em casa e o ano ainda é 2012. Que bom!



Em seu país os demagogos incapazes de raciocínio, gananciosos e desonestos são tão poucos que nunca poderão se somar para levar à ruína intelectual e econômica aqueles que pagam por seus tão fartos salários e benefícios...

Ou podem?
 
 
 
 
* Cecilia Ferreira, jornalista, membro da UBE e da Academia Araçatubense de Letras.

domingo, 8 de julho de 2012

Pátria Hospedeira

 

Na tela o pintor finaliza a obra. Quis pintar a mãe. Fêmea de formas generosas que gera, pare filhos, e os tem sustentado sem miséria por séculos.


Corpo e terra (como qualquer mãe que se doa na criação e sustentação) essa que ele pinta nas cores do Brasil é a Pátria. Na tela dividida em duas, comparando, o artista desenha outra terra também mãe: avó. No mundo há muitas, mas escolheu uma por ser o seu lar e outro o de seus pais.


O jovem desenhista já ouviu falar que a obra, dona de seu destino, comanda as mãos do criador. Mas é a primeira vez que sente esse manifestar.


Independente de si, à medida que pinta a terra nativa na exuberância verde, efusão solar, e pulmão azul que naturalmente saciam sedes e fomes, a arte vem a enrubescer ante efervescências gulosas e ancestrais como nunca antes neste país.







Mesmo estando a Mater acostumada a sugadores, a pintura cresce rumo à visão do inferno. Não ardente como o de Dante, mas rubro como dantes no quartel de Abrantes.









Filhos adultos, com algum poder, apenas se alimentam, sem produzir. Esses desnaturados, que em nada auxiliam, fingem ignorar sofrimentos de irmãos em países vizinhos, mas reconhecem de longe os comparsas. E é só a eles que protegem na intenção de manutenção do poder ávido e doentio de consumir as próprias mães.

Pasmo ante a resistência das mãos que se recusam a pintar o desejado quadro de beleza e equilíbrio o artista recorda: estudar e aprender já foram obrigações do aluno e não uma falácia pública.

Época em que homens de verdade queriam fugir do falso conhecimento e da herança da manutenção do analfabetismo, essa sim maldita.


Lembra-se da revolta sentida quando um professor ensinou que a evolução do outro país era maior porque os homens de uma e outra localidade eram diferentes.


Já traços torturados acolá indicam que a pátria avó (berço de cento e um homens alfabetizados que navegaram em busca de fincar raízes e gerar o próprio futuro como nação) tinha o desejo de preservar a própria história e filhos; e pela leitura e entendimento da Bíblia alfabetiza até os escravos.

Já as pinceladas aquém denunciam a pátria mãe contaminada por dois degredados, sem instrução, sem anseios maiores do que engravidar índias ao acaso enquanto subsistem, sujeitos cujas pegadas nada históricas se seguem do invasor limitado ao luxo de extrair riquezas desta terra por anos.


Homens de lá e de cá se encaixam no que se pode aprender em aulas de história, e aqui e ali a pintura demonstra-os também na biologia: no berço dos pais do artista se desenham milhares de organismos simbióticos, mas no berço Brasil apontam para o crescimento desordenado de maioria parasitária.



Na natureza as relações simbióticas são boas, um organismo que depende do outro para viver pode gerar benefícios mútuos, mesmo em proporções diversas.






Já o efeito de um parasita no hospedeiro é sempre de abuso. Abuso que pode ser inócuo e, se não afetar as funções vitais o incômodo será como o de dois pequenos piolhos sobre o lombo de um urso, levemente irritante.


Mas diante do não conter a parasitose que se alastra pelo quadro o artista plástico questiona: Teriam aqueles primeiros sugadores de Brasil instalado vírus e bactérias que insistem em se revelar?


Não há nova camada de tinta que esconda o defecar das gulas a gotejar, antropófagas, ou o visco de suas babas vermelhas e infecciosas, nem terebintina que retire os humores malcheirosos de corpos gananciosos que virais retransmitem falsas alegrias em banquetes de orgias canibais.



Numa união cancerígena e aviltante, saltam na tela os que se julgam melhores e mais espertos do que outros, sem noção do quanto brindam à própria incompetência.


À purulenta febre rubra, publicamente instalada pela ignorância incomum, tornada legal e comum por políticas incorretas, a mãe Brasil quer deixar recado.


Nas pústulas infeccionadas (que grassam sobre o corpo-tela um dia perfeito) a Pátria faz saltar aos vermes (para que – talvez – possam entender) que sem um mínimo de retorno a lenta morte da pátria hospedeira, ainda que gigante e amorosa, será a mesma lenta e dolorosa morte de cada um dos seus hóspedes.


Curiosidades:

* Crônica de Cecilia Ferreira publicada no Jornal a Folha da Região em 08/07/12

domingo, 24 de junho de 2012

RIA -, POSSA + 20





No chamado ecocentrismo eco é a casa, o domicílio, o meio ambiente como o centro do universo atual.





Ego, o eu, o homem, a humanidade como umbigo universal foi o homocentrismo, filosofia ultrapassada. Seria?





Mestre e aprendiz raciocinavam sobre a sobrevivência humana.

Avaliavam a diferença entre civilizações mais e menos inventivas e capacidades de agirem evolutivamente, ou de seguirem dependentes da natureza ao longo da história.




O pensador crê que o homem se sente sempre o centro do universo, mesmo diante da evolução do saber. Mesmo tendo noção das infinitas forças naturais. Mesmo reconhecendo cientificamente o aumento das tempestades solares, o ser humano quer se achar o instrumento único do aquecimento global.








Sim o homem precisa usar a consciência ao relacionar-se com os animais e com o restante da natureza. Mas se ainda nem aprendeu a se relacionar com o semelhante?



Ou já não importa que homens continuem se matando e ignorando as dores alheias, que permaneçam se corrompendo e se beneficiando de dinheiros que não são seus aumentando o sofrimento dos muito carentes?








Ah, é, tudo o que interessa hoje ao universo é que se reciclem garrafas pet e saquinhos de supermercado!, concorda o aluno.





O filósofo lembra que governos incapazes de cuidar da saúde, da segurança, da educação infantil, de assistir a adolescência, de sustentar a velhice, de dar boa infraestrutura às escolas, ao asfaltamento, à água encanada e tratada, e, apesar dos altíssimos impostos, serem também ineficientes no proporcionar energia barata podem criar exageros para desviar a atenção dos eleitores diante dos verdadeiros problemas. Por que não valorizar a extremos algum ecocentrismo?

Faz sentido pensa o aluno: “Alimentos orgânicos e farra da sustentabilidade” seriam o novo “pão e circo” para o povo? Ecocentrismo seriam os estudos ecológicos vestidos para desfilar num carnaval de sustentabilidade homocêntrica? O Brasil, talvez mais do que outros países, poderia ter abraçado esse fantasiar?

Bem, não há como contestar certos fatos. O homem já pensou ser o único responsável pela abertura de certo buraco na camada de ozônio. E agora o tal buraco está prestes a se fechar sem a ação do homem.

Seriam eles os “eco-catastróficos”, brinca o rapaz e parodia: enquanto isso, na sala dos adeptos da “ego-eco-catástrofe” pensa-se em talvez afirmar que o vilão dos novos transtornos climáticos seja o tal fechamento “ozônico”. Só não encontraram (ainda) como voltar a culpar-nos por essa ação.



Bem, é que gostaríamos de ser assim onipotentes. Mas, as profundas alterações climáticas provavelmente têm pequena parcela de influência humana, segundo estudiosos honestos. E, se entre os chamados racionais não somos todo-poderosos, é dos criativos e/ou realizadores que tem dependido, senão a existência, o conforto da maioria de nós.





É na contramão da história que os “eco-ilógicos” pensam que o homem pode tudo possuir sem nada oferecer? Como se aguardassem que a natureza lhes despejasse no colo o alimento e o conforto de um iPad?








Ao menos até hoje sempre têm restado homens capazes de plantar, colher, e pastorear por lucro, mas pela fome no mundo, e muitos deles só sabem fazer isso de maneira racional e sustentável (pois disso depende o seu negócio), outros pensam em como fabricar um tablet de pouco impacto ambiental, custo energético menor, preços mais baixos para lucros compensatórios, etc; ou seja, alimento mais bem-estar e por aí iremos, avalia o professor.




É sabido que os partidários da beleza de se viver como índios não sobreviveriam uma semana no seio de uma taba sem ter sede de civilização, diverte-se o estudante, o “eco-vegetativo” é gente que repete ideias modernas e bonitinhas, mas desconhece o assunto e os interesses... E, professor, há solução?



A solução para a sustentabilidade do mundo, hoje como sempre, é clara como água. É matemática simples, continha de mais, qualquer criança entende:

* Se um governo gastar mais do que arrecada, por mais que habitantes honestos gerem riqueza e se esforcem, jamais se governará para todos.

* Da mesma forma se um planeta gerar mais gente do que suporta, não importa o quanto tente crescer em produção, jamais proporcionará um ambiente digno e com qualidade de vida para todos.

* A solução é o equilíbrio, entre as espécies. É perdermos a vocação de onipotência e enxergar que ratos em crescimento dentro de uma caixa fechada tendem a comer-se.

* Não pode haver no mundo mais gente do que recursos naturais. E os países inventivos e producentes tomarão as medidas cabíveis sem fanfarra.

E é isso, constata o mestre. Diante de tantas pressões e propagandas contrárias, diante de tantos invasores, e espécies de desmatadores de terras vestidos de bom selvagens, como das muitas devorantes burocracias, é preciso que nossas mentes inventivas e geradores de fartura resistam sem deixar-se esmagar.

Porque só eles podem ensinar, vinte vezes mais, com exemplos pessoais, que progredir é cuidar do próprio quintal.

Quem não sabe que qualquer animal com alguma inteligência não faz xixi onde dorme?, finaliza o aluno.





Curiosidades:

* Crônica publicada no jornal Folha da Região, coluna Porta-retratos, em 24/01/12

domingo, 10 de junho de 2012

O COLECIONADOR DE EXPRESSÕES.









Naquela pequena cidade Prudêncio era o dono da única indústria de grande porte.


Era bom remunerador, fornecia empregos, gerava receita, pagava impostos e fazia a cidadezinha brasileira ser diferente da maioria: o município dava lucro ao país.




- Coisa rara, afirma Joaquim Visitante, deve dar briga por emprego!


- Cidade industrial dando lucro, sabe como é, responde o morador João Contador. Não sou economista, nem sindicalista, e desconheço a razão do aumento na oferta de empregos. Mas o crescimento, ainda que pequeno, tem sido contínuo e a receita da empresa impressiona!

Ambos estão numa missa de sétimo dia do falecido Prudêncio, um idoso muito ativo e trabalhador, producente até seu último dia, que parece querido pelas famílias dos funcionários: a igreja e praça defronte efervescem com os que querem solidarizar.

João segreda a Joaquim:

- É, mas o cara era muito excêntrico! Colecionava expressões.

- Como assim?, pergunta Joaquim.



- As paredes e aparadores da casa estão repletos de porta-retratos de homens em variadas expressões, responde o amigo.


- Eta, João, por quê?





- Ah, parece que o Prudêncio era maníaco. Registrava homens fazendo caras inteligentes diante de idiotices.

- Como?

- Aos domingos o industrial pegava seu jatinho e saia pelo Brasil. Ia assistir em bar qualquer àquele programa noturno e global. Ao transmitirem matérias que ele pensava encomendadas por interesses estranhos, o Prudêncio fotografava algum telespectador com cara de sábio diante da besteira. Debaixo da foto registrava data e reportagem.

- Não entendi, João.


- Tipo assim: foto de um engravatado fazendo ar brilhante (um sujeito que nunca viu uma galinha, a não ser frita no prato). E, sob a foto, registrado: “Homem que acredita nos interesses de outros países / Matéria: ‘É preciso acabar com o gado. O pum do gado causa o aquecimento global’”. Entendeu Joaquim?




- E pode mesmo causar, João?






- Uai, Joaquim, o que pode ser mais agressivo do que os gases soltos no ar dia e noite pelas gigantes indústrias ocidentais e orientais? Daquelas que fabricam armas, tanques, navios e aviões de guerra? Por que seria o pum do gado o vilão da humanidade? O homem do campo ia ter que viver com tampão nas narinas!




- Mas, por que alguém pagaria por tal reportagem, João?





- Sabe o chefe de propaganda do Hitler? O que convenceu os alemães de que Hitler podia matar judeus e todos os que não fossem puros alemães?

- O tal de Goebbels, que dizia: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”?
















- Naquele tempo mal existia cinema e Hitler foi transformado num homem bonzinho, quase um Papai Noel! Imagine tais questões reproduzidas pela Tv e pela internet para milhões de desinformados?










- Entendi, João: eles defendem tudo o que produzem e atacam o pouco que produzimos. Defendem-se como “raça” superior e o brasileiro sem estudo, ou ganancioso, acredita. Foi aí que Prudêncio morreu de raiva? Ao ver a última reportagem encomendada? Porque dizem que morreu no dia em que acusaram os policiais ‘malvados’ de virarem certa câmera. O interessante é que não mostraram nenhum policial se dirigindo para a câmera, nem a mão dele ‘virando ela’, nem tascando pedrada. Querem que os traficantes, transferidos pra São Paulo, possam exercer o seu direito de ameaçar, assaltar, matar, desde que continuem a comprar a peso de ouro o armamento pesado que produzem, não é mesmo?




- Por aí, né Joaquim? Imagine, se o policial tivesse mesmo virado a câmera? ‘Tava’ tudo sendo filmado! A câmera tava gravando, caramba! Ia ter lá a cara dele, a mão dele, tudo! Ia sair na mídia mundial! Ia ser escorraçado na capa da Seja!

- Isso é! Foi dessa mentira que o Prudêncio morreu de raiva domingo passado?

- Bom, morreu domingo à noite e de raiva. Sim. Mas não viajou naquele final de semana. Ficou em casa reunido com os filhos.

- E...? Pô, fala João!

- É que o Prudêncio, que dividira igualmente as cotas da empresa com seus seis filhos adultos, foi informado por eles da venda da própria empresa.

- Acho que eu também morreria de susto. Dá lucro, vender por quê?

- Disseram que cansaram das lutas de classe forçadas e aceitas como normais e que cansaram de a mídia tendenciosa os apontar como vilões da atualidade brasileira.

- E foi então que o Prudêncio morreu!



- Não, mas quando os filhos informaram que iriam investir o dinheiro da venda da fábrica nas próprias candidaturas a deputados e senadores (para viverem para sempre felizes na dependência do Estado)foi aí que Prudêncio morreu de raiva por não poder fotografar-se!





• Artigo de Cecilia Ferreira publicado em 10/06/2012 no jornalFolha da região, coluna pessoal PORTA-RETRATOS.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Navalha na Mater

 

Não precisou olhar na folhinha para saber o dia. Ia visitar o filho. A data? Domingo, 13 de maio. Por coincidência dia das mães, e também da abolição da escravatura. Mas o que a emocionava era o presente.

Dia 13... Que lhe importava a abolição? Era branca; o marido, que foi-se embora com outra, branco; e o filho único era branco também. Os problemas e necessidades do mundo que se danassem.









Tudo o que importava na vida era aquele garoto, hoje rapaz.








Foi para defendê-lo que se desentendeu com a sogra logo no início do casamento. Aquela mulher não via que o menino pequeno bateu a porta na cara da velha sem querer? Ele só se defendia da rabugenta. E, afinal, mesmo que a portada tenha lhe quebrado o nariz, ela não viu que ele fez sem querer? A criança só queria fugir do castigo injusto. Ninguém mandou a mulher turrona e teimosa querer botar o neto de castigo. Ele só estava expressando a veia artística. Acusá-lo de destruir os seus batons, os sofás, as paredes? Ora! Justo ele que chorava com as pequenas injustiças, ele que era tão delicado e sensível.



Sensível e inteligente! Nem gostava de lembrar daquela mestra despreparada que o repreendeu na frente dos coleguinhas por não fazer as lições. Afinal a criança tem direitos! Os deveres são dos professores! Claro que aquela incapaz não podia ver o quanto o seu filhote estava à frente da turma.




Lições para ele eram perda de tempo!


Ele aprendia muito mais com as próprias experiências, estava sempre inventando novidades. Não tinha tempo para gastar com bobagens!

Foi muito chato ter que ir à escola e passar uma descompostura na diretora: “Muito fácil, eu pago caro e vocês o mandam para casa? Vá enquadrar a tal que quis suspender o meu filhinho!”

E ruim mesmo foi quando o filho telefonou-lhe a cobrar de um orelhão dizendo que não se preocupasse porque estava com amigos. Ainda bem que ele era bom de amizades!

Imagine, a diretora o mandara varrer o pátio! Que humilhação! Claro que tinha que fugir da escola!

Como assim? Naquele dia, enfurecida, enfiou o dedo na cara da diretora. Ainda ia meter nela um processo por abuso infantil! Poxa! Só o dinheiro que gastava lá num mês dava pra pagar faixina para um ano!

Mas, o filho ainda ia ser reconhecido! Sempre o viu como um grande cientista. Tinha uma curiosidade e uma atitude investigativa que só ele. Sabia que até a ex-melhor-amiga ainda se desculparia!

Que raiva quando a amiga telefonou dizendo que nunca mais queria ver o seu garotinho na casa dela. Na porta viu a colega inchada de chorar abrir a porta, dizendo impropérios absurdos sobre o seu menino, e pondo no seus braços, como se fosse um troféu, Mimi, a gatinha de estimação, mortinha por espetos como em tourada.

E o que mais a revoltou foi que a amiga se recusou a entender as razões do filho. Então jurou ali, na frente dos meninos, que a colega jamais voltaria a vê-los. E ofendida, abraçando o próprio rebento a quem ia cobrindo de carinho e razão, foi-se resmungando: “Mulherzinha mais à toa!”

Escovou os cabelos e as cinzas do passado. Com pincel coloriu bochechas e alegrias do presente. Hoje, dia das mães, ela presentearia o filho mais uma vez!

Fez com as próprias mãos o bolo que o filho mais gostava.


Reconhecia pela primeira vez , com certo medo, que nunca soubera dizer não para o querido, carne de sua carne. E não era por preguiça, como escutara maldosos dizerem, nem por comodismo... Ninguém mais no mundo enxergava o verdadeiro amor?

Não importa!

O que vale é a coragem que a faz levar para o presídio a demonstração desse afeto.

Se o filho é branco e rico, por que aquela escravidão?

Ele precisa se ver livre logo! Por isso fez o presente que o filho pede há semanas!



Misturado ao recheio preferido,

em cabo de madrepérola, segue a afiadíssima navalha que foi do avô.


CURIOSIDADES:

* Este artigo foi escrito para ser publicado no jornal Folha da Região no dia 13 de maio de 2012, porém foi descartado pela autora que acredita que no todo do blog as suas ideias não corram risco de ser mal interpretadas.

* Esta autora crê na igualdade entre os homens, e na educação rígida e profundamente amorosa e dedicada como solução sine qua non para todos os problemas do mundo.